Textos

A cabra de pura fé (Peça Picaresca)

Rafael Figueiredo


A Cabra de Pura Fé




Personagens:

João Calango
Coronel Salustiano
Padre Augusto
Prefeito
Dorotéia (Filha do coronel Salustiano)
Fabrício (Noivo de Dorotéia)



Entra coronel Salustiano.
Coronel – Aí está você, estrupício! Entregou o burro?
João – Infelizmente, coronel, o burro fugiu.

Coronel – Como é?

João – No meio do caminho, o bicho endoidou e saiu correndo mato adentro.

Coronel – Só pode ta de brincadeira!

João – To não coronel, o burro se escafedeu.

Coronel – Por acaso sabe quanto valia aquele burro?

João – Sei sim coronel.

Coronel – E como é que sabe?

João – Avaliando pelos dentes, força, patas e tudo mais, acredito que deveria valer uns cem contos;

Coronel – Mas isso é que não! Aquele bicho valia no mínimo trezentos.

João – Duzentos, coronel, e acho difícil quem desse mais de cento e cinquenta.

Coronel – Por acaso vendeu meu burro, João Calango?

João – isso é que não! Já lhe disse coronel, o bicho fugiu sem motivo.

Coronel – Alguém vai ter que arcar com esse prejuízo.

João -E quem seria esse alguém, coronel Salustiano?

Coronel – Tu mesmo, imundice!

João – Eu?

Coronel – Isso mesmo, tem três dias pra me arranjar um burro novinho ou te arranco o couro.

João – O coronel, vai me desculpar, mas por acaso não teria outra escolha?

Coronel – Ou meu burro ou teu couro, é só escolher.
João – Escolho o burro.

Coronel – Muito bem, estamos entendidos. Em três dias João, três dias!
Coronel sai. Entra o Padre.

Padre – João Calango, homenzinho salafrário! Pode me dizer o que fez com o dinheiro da santa?

João – Que santa, padre Augusto?

Padre – A que lhe mandei entregar, na casa da viúva Valquíria.

João – E santa tem dinheiro?

Padre – Não se faça de besta.

João – Ora padre, e pra que é que a santa precisa de dinheiro?

Padre – Sabe muito bem que o dinheiro vai para as melhorias da nossa amada igreja.

João – Me perdoe padre, mas, faz anos que a igreja não é reformada.

Padre – Ora, mas isso é por que o custo é alto. E deixe de conversa, onde está o meu dinheiro?

João – Foi o seguinte, ontem o coronel Salustiano me pediu para levar um burro até a fazenda dos Palermos, que seria o dote de casamento da filha do coronel. Aconteceu que no meio do caminho o bicho se soltou e fugiu.

Padre – E o que eu tenho com isso?

João – Então, quando voltei estava muito nervoso, o próprio coronel disse que irá me tirar o couro se não lhe entregar um asno novo em três dias.

Padre – Assim vai aprender. Mas onde é que o dinheiro da santa entra nessa história.

João – Como lhe disse, padre, eu estava muito aflito, e dei por conta de tirar o dinheiro da santa para comprar um burro novo pro coronel.

Padre – Mas isso nunca se viu! Tirar da santíssima igreja para cumprir com um capricho.

João – E por acaso ter o couro é capricho?

Padre – Nesse caso é!

João – Isso por que não é o seu!

Padre – O que?

João – Que paciência Deus lhe deu. Afinal, o senhor há de me perdoar pelo feito não é padre.

Padre – Claro filho vá a igreja amanhã, peça perdão, e nosso senhor há de perdoá-lo, quanto a mim, pague-me o dinheiro.

João – Não tenho mais padre.

Padre – Ora, mas acabou de dizer que o coronel ainda está bravo pelo burro, logo não comprou o bicho.

João – No fim essa confusão toda me deu uma fome.

Padre – Fome, calango? E comeu todo o dinheiro da santa?

João – Claro que não, padre.

Padre- Pois bem.

João – Comi um tanto outro tanto eu bebi.

Padre – Não se tem mais respeito nessa cidade pelas coisas de deus. Pois bem, João Calango, pilantra e salafrário de uma figa, tem também três dias para dar conta de devolver o dinheiro. E tenho dito! Todo o dinheiro!

João – E onde vou arranjar todo esse dinheiro, padre?

Padre – Não me importa.

João – E por acaso o padre sabe quanto tinha na caixinha?

Padre – No mínimo duzentos contos.

João – Isso é que não! Tinham cem contos.

Padre – Não seja besta, João, sei muito bem que a santa chega com duzentos contos na igreja, toda semana.

João – Mas o senhor sabe quanto cada um deposita?

Padre – Claro que não.

João – Então.

Padre – Ora safado!

João – Vamos fazer assim, eu lhe pago o dobro de um quarto do que o senhor disse que tinha, está bom para o senhor?

Padre – O dobro?

João – De um quarto!

Padre – E quanto é isso?

João – Cem contos!

Padre – Mas isso é menos do que eu disse.

João – Mas é mais que o dobro que merece.

Padre – O que disse?

João – Que lhe pagava em ouro se pudesse.

Padre – Está certo, melhor garantir o pouco do que perder tudo, vou aceitar estes seus cem contos, João Calango, mas quero que me leve o dinheiro na igreja em três dias, está certo?

João - Combinado, Padre.

Padre – Estamos conversados.

João – até mais ver, padre Augusto.

Padre sai. Entra o prefeito.

Prefeito – Calaaaango!

João – (falando sozinho) Pronto!

Prefeito – Seu ordinário, patife.


João – (ainda sozinho) – É hoje!

Prefeito – Venha aqui, seu tratante.

João – Meu bom refeito, o que há, por que tão aborrecido, isso não vai lhe fazer bem.

Prefeito – Não vai me fazer bem, lhe digo o que me faz bem, tirar seu couro safado.

João – Pois então entre na fila prefeito.

Prefeito – Como é?

João – Nada não, me diga senhor o que lhe deixa tão zangado com este pobre cidadão.
Prefeito – E não sabe, é?

João – Claro que não, meu bom homem.

Prefeito – Semana passada você foi à prefeitura oferecer-me um papagaio australiano, que falava e cantava.

João – Isso mesmo. E o senhor me pagou cem contos por ele, mas já lhe entreguei o bichinho.

Prefeito – É já. Só que isso João, é uma galinha pintada de verde!

João – Ué, o senhor tem certeza prefeito?

Prefeito – Mas é claro que tenho. Olha.

João - E o Dr.,por acaso o senhor já foi a Austrália?

Prefeito – Nunca, mas que isso aqui não é um papagaio não é.

João – Pois olhando assim até parece mesmo uma galinha.

Prefeito – É claro que é uma galinha;

João – Mas é uma galinha verde.

Prefeito – Por mim podia ser até azul.

João – Mas o negócio já ta feito, prefeito.

Prefeito – Mas eu paguei foi por um papagaio.


João – O problema é que o senhor comprou como viu.

Prefeito – Vamos fazer o seguinte, Calango safado, pega esse bicho feio aqui, e me traz meu dinheiro, e eu não te boto na cadeia. O que acha?

João – Acho ótimo.

Prefeito – Estamos entendidos.

João – Com certeza. Até mais prefeito.

Prefeito e João saem.

Entram coronel e Dorotéia, filha do coronel.

Dorotéia – O que lhe aborrece tanto meu pai?

Coronel – Aquele safado!

Dorotéia – Que safado?

Coronel – O safado do Calango! Perdeu o burro que mandei levar para seu noivo como dote para seu casamento.

Dorotéia – Meu pai, já disse que não amo Fabrício, não posso casar-me com ele.

Coronel – E o que tem o amor com isso?

Dorotéia – É preciso amar, meu pai, sem amor a vida não vale a pena.

Coronel – Veja bem, minha filha, esse casamento é um grande negócio.

Dorotéia – O senhor está me vendendo?

Coronel – Claro que não, onde já se viu dizer uma coisa dessas?

Dorotéia – Pois então não me case com aquele brutamonte do Fabrício.

Coronel – Já está decidido.

Dorotéia – Se mamãe estivesse aqui...

Coronel – Não fale de sua mãe, que deus a tenha.

Dorotéia – O senhor sabe que a mamãe não está morta.
Coronel – Que deus a tenha...

Dorotéia – Ela fugiu...

Coronel – Que deus a tenha minha filha, que deus a tenha...

Coronel sai. Entra João Calango.

Dorotéia – Meu bom João, que alegria vê-lo.

João – Boa tarde, dona Dorotéia, é bom saber que alguém nessa cidade fica feliz em me ver.

Dorotéia – Será que tem um tempinho para ajudar essa sua velha amiga?
João – Para a senhora, tenho todo o tempo. O que precisa?

Dorotéia – Como já sabe, meu pai quer casar-me a força com Fabrício Palermo. Mas eu tenho um plano para impedir esse casamento, mas vou precisar de sua ajuda.

João – Claro que lhe ajudo, mas vou precisar de uns dias, preciso resolver o caso do burro de seu pai antes, estou para perder o couro.

Dorotéia – Ouvi dizer. Vou esperar ansiosa, mas diga como posso lhe ajudar nessa sua empreitada com meu pai?

João – já que a senhora perguntou, será que não teria alguma daquelas pepitas de ouro que seu pai guarda da época em sua família era dona do garimpo? Uma pequena, a menor que tiver.

Dorotéia – Tenho sim João. Vou buscar.

Sai Dorotéia


João – Viu Clotilde, a dona Dorotéia é que é boa gente, não sei como é que pode ser filha daquele avarento do coronel Salustiano. E essa ajuda dela será muito bem-vinda.


Dorotéia volta

Dorotéia – Aqui está João.
.
João – Será de grande valia, dona Dorotéia.


Dorotéia- Pra não casar com aquele tapado, pagava todo o ouro do mundo.

João – A ajuda que dou a senhora é por pura simpatia a sua causa, este ouro seu pai terá de volta, por outros meios.

Dorotéia – Você é um anjo João.

João – Que isso, dona, de anjo não tenho nem o branco dos olhos.

Dorotéia – Mesmo assim, obrigado.

João – Não há de que. Assim que resolver essa questão com seu pai no encontramos para conversar sobre o seu plano.

Dorotéia – Combinado João. Até mais ver.

João – Nada dona, até


O Tempo Passa (um homem passa com uma placa escrito "Tempo")




João – Falando com a lagartixa em seu ombro – Hoje é o dia, Clotilde.
Coronel – Então João Calango, ta pronto pra perder o couro?

João – Isso é que não, coronel.

Coronel - Imagino que tenha me arranjado um burro novo.

João- isso também não.

Coronel – Mas o que te passa atrevido?

João –Tenho uma coisa que vai lhe agradar ainda mais que um simples asno.

Coronel – Contigo é sempre pelas voltas né, estrupício?

João – O coronel merece coisa melhor que um burro, pela falta que lhe fiz, quero lhe retribuir com maior generosidade.


Coronel – E o que, por acaso, pode ser melhor que ter o que eu tinha de volta?

João – Se o senhor me permitir, gostaria de pedir que me encontrasse na igreja dentro de duas horas.

Coronel – Não permito, pode ir falando, imundice, que meu tempo vale ouro.

João – Pois é disso que se trata, ouro, garanto ao senhor que não vai se arrepender.

Coronel – Que conversa fiada é essa, vamos desembucha, homem.

João – Acontece coronel, que em minha família existe, há muitos anos, passada de geração em geração, uma bendita cabrita.

Coronel – De que me serve uma cabrita velha?

João – A bicha ta nova, coronel. É disso que se trata.

Coronel – Sei, mas não quero, nem velha nem nova, quero meu burro ou teu couro, e está dito, e como não tem o burro, sobra arrancar-te o couro.

João – Calma, coronel, deixe eu lhe explicar. O motivo da cabrita não envelhecer é que ela é encantada. Dizem que foi uma bruxa que transformou um certo rei em cabra há muitos anos atrás, e que devido a nobreza da linhagem do sangue do homem, a cabra bota ouro.

Coronel – E por que tu vive passando fome?

João – Pois ai é que está a questão, coronel, a cabra só faz ouro na mão de quem acredita, eu mesmo já tentei, não tem jeito de ela me dar um ourinho sequer. Mas o senhor, um homem culto, bem resolvido de si, sabedor das coisas da vida, tem certeza que vai conseguir.

Coronel – Mas isso logo se vê, a cabra era um rei, então deve de precisar ser nobre para que ela lhe de dinheiro.

João – Exatamente, coronel, pobre não tem motivo para acreditar em sorte, não.

Coronel – Isso que é!

João – Então o coronel faz gosto de ter a bichinha?

Coronel – Pode me trazer, e se acaso ela não botar ouro, te arranco mais que o couro.

João – E com toda a razão! Mas vou lhe pedir para que me encontre na igreja, a cabra está dormindo agora, assim que ela acordar levo pro senhor lá.

Coronel – Por que encasqueta em levar na igreja?

João – Por que a cabra é cristã, digo o rei.

Coronel – Certo calango, mas vou logo avisando que se me enganar ...

João – Já sei, o senhor me arranca o couro, o senhor já disse.

Coronel – Isso!

João – E por acaso eu sou besta de tentar enganar um homem como o senhor?

Coronel – Besta você é, agora se é doido de desfazer do próprio lombo, isso nós vamos ver.

João – Assim, o senhor me ofende coronel, tenho pelo senhor grande estima. Jamais tentaria tal engodo contra o senhor.

Coronel – Bom isso nós veremos.

João – Fique tranquilo, em poucas horas o senhor irá presenciar um milagre sem tamanho.

Coronel – Está certo, lhe encontro na igreja em algumas horas, e se por acaso...

João – Eu sei, eu sei. Até já coronel Salustiano.

Coronel – Até!

Coronel sai. Entra o prefeito.
Prefeito – Então, ai está o Calango mais safado que um dia se viu.

João – Bom dia pro senhor também, prefeito.

Prefeito- Que bom dia o que, cadê meus cem contos?

João – Cem contos?

Prefeito – Não se faça de desentendido, os cem contos que eu te paguei por aquela galinha.

João – Papagaio australiano.

Prefeito – Ora, deixe de bobagem e me pague logo seu salafrário!

João – Pois bem, vou lhe devolver o seu dinheiro prefeito.

Prefeito – Mas isso é que vai mesmo.

João – Vou lhe devolver o dobro .

Prefeito – isso, é bom.

João – Vou lhe devolver o triplo!

Prefeito – Acho justo.

João – Pois vou lhe pagar em ouro!

Prefeito – Assim que se faz! Em ouro?

João – Me encontre em duas horas na igreja do padre Augusto, que lhe explico tudo lá, senhor prefeito.

Prefeito – Mas e por que não pode me dizer aqui?

João – Por que sim prefeito, ou o senhor prefere receber os cem contos?

Prefeito – Mas deixe de desaforo, João Calango, esquece-se de que está falando com o prefeito da cidade?

João – Tem razão, prefeito, o senhor é um homem importante, e deve de ser muito ocupado também, vou pagar-lhe os cem contos aqui mesmo, que cabeça a minha querer pagar ao senhor três vezes o valor e ainda em ouro.

Prefeito – Calma, calma, não vamos nos precipitar. Afinal, só está tentando ser honesto, além de generoso, pois bem, vou lhe esperar na igreja.

João – O senhor tem certeza?

Prefeito – Absoluta, inclusive tenho assuntos com o padre Augusto. Vou pra lá agora mesmo. Até já!

Prefeito sai. João sai.
Na igreja.

Prefeito – Bom dia padre augusto!

Padre – Bom dia prefeito Antão. Ao que devo a hora?

Prefeito – vim esperar o Calango.

padre – Que bom saber disso. Assim poupo o esforço de ir procurá-lo.

Prefeito – E o que quer com ele?

Padre – Aquele pilantra me deve cem contos.
.
Prefeito – Pois eu estou aqui pelo mesmo motivo, ele virá me pagar, em ouro.
.
Entra coronel.


Coronel – Prefeito, padre. Bom dia para os senhores.

Padre – O senhor veio esperar o João Calango também?
Coronel – E como sabe?

Padre – Palpite. O mesmo ocorre com o prefeito.

Prefeito – Ele prometeu pagar o que me deve em ouro.

Coronel – Ele Está me trazendo uma cabrita, diz que ela defeca ouro.

Padre – Isso não é possível.

Coronel – Ele jura que é. E se não for, lhe arranco as tripas.

Prefeito – Será o mesmo ouro que ele me prometeu?

Coronel – Se for, o senhor vai ter que esperar. Pois a cabrita é minha por direito.
Prefeito – Sua coronel?

Coronel – Sim, minha!


Padre – Não vamos nos aborrecer. Se por acaso essa conversa for verdade terá ouro para todos nós.

Coronel – Nós é muita gente, padre.

Prefeito – Muita.

Padre – Ele me deve também.

Coronel – isso é com o senhor.

Prefeito – Lá vem o danado.

Chega Calango

João- Meus senhores, vejo que já se encontraram.

Coronel – Parece que prometeu mais que podia não é, calango?

Prefeito – é essa a tal cabra?

Padre – cadê o dinheiro?

João – Quanta hospitalidade. Os senhores podem ficar tranquilos, eu explicarei a todos.

Coronel – Eu acho bom.

Prefeito – Eu também.

Padre – E eu!

João – Essa é a cabra de que falei para o coronel. Seu nome é Mida. E sim, vou pagar a todos os senhores, quer dizer, o coronel vai pagar.

Coronel – Mas isso é que não.

Prefeito – Isso é que não.

Padre – Não, isso não.

João – Fique tranquilo, coronel, vamos fazer uma aposta. Se a cabra lhe botar o ouro na mão, o senhor compra minha dívida com esses senhores, e fica com a bicha pro senhor.

Coronel – mas isso eu já tenho, estrupício.

João – O senhor já tem a cabra, mas não tem a palavra mágica.

Coronel – Palavra?

Prefeito – Que palavra?

Padre – Diga logo.
João – A cabra, só descome ouro na mão de quem acredita. Mas tem uma palavra mágica que precisa ser dita, para botar ouro, a tal cabrita.

Coronel – Eu sabia, só podia. Mas e se nada disso der certo calango, qual o seu plano?

João – Ora, coronel, se ela não botar o ouro na sua mão, dou ela ao padre, que é um homem de fé e ainda é padre, como lhe disse a cabra é cristã.

Coronel – isso é que não.

prefeito – mas é claro que não.

Padre – Claro que sim.
Coronel – como é ?

Padre – O João ta certo coronel, se por acaso ela não lhe der o ouro, fico com ela, e pago a dívida de todos com o ouro.

Prefeito – Se é por isso, eu também aceito a bicha.

Coronel – Saiam pra lá seus urubus. Ta certo João, eu compro sua dívida com esses dois.

João – Já que está tudo resolvido aqui está a cabrita, coronel.

Coronel – E a tal palavra?

João – O senhor só precisa chamar ela pelo nome três vezes.

Coronel – Só isso?

João – Só.

Coronel – Veremos. (Abaixando-se atrás da cabrita) – Mida, Mida, Mida.

João – Com mais fé coronel .
Coronel – Mida, Mida, Mida!

João – O senhor podia rezar um pouco, padre?

Coronel – Mida, Mida, Mida!

João – Prefeito, ajude aqui, abane um pouco a bichinha, ajuda a relaxar.

Depois de algum tempo a cabra defeca a pepita.

Coronel – Mas meu deus! Era verdade, João!
Padre – Milagre.

Prefeito – Estamos ricos!

João – eu não disse aos senhores. Pois bem, tudo resolvido, o coronel fica com a cabra bendita, e paga o prefeito e o padre.

Coronel – Pago com gosto!

Padre – Com gosto!

Prefeito – Com ouro!

João – Até mais ver, então meus senhores.

Todos saem, João surge contando a história para Dorotéia.

Dorotéia – Mas uma coisa eu não entendi, João. Como foi que fez pra cabrita defecar o ouro que lhe dei?

João – Um mágico nunca revela o seu segredo dona Dorotéia. Mas me diga, como está o seu pai?

Dorotéia – Todo sujo e fedido, faz três dias que só fica atrás da tal cabra, gritando Mida, Mida Mida.

João – A ganância, Dona Dorotéia, transforma tudo em tesouro, seja bosta ou seja ouro! Mas agora, qual o seu plano para escapar do casamento com o doutor Fabrício.

Dorotéia – Vamos matá-lo.

João – Como é, dona Dorotéia? – Parando subitamente

Dorotéia – Não vamos matar de verdade, João. Venha comigo, vou explicar tudo no caminho.

Saem João e Dorotéia. Entram, Fabrício e o coronel.

Fabrício – Então, meu sogro, como vão os negócios?

Coronel – Não posso me queixar.

Fabrício – Que bom. Eu fiquei sabendo que o senhor arranjou um tal cabra que bota dinheiro do fundos é verdade?

Coronel – E quem lhe contou isso?

Fabrício – Então é verdade.
Coronel – É sim,
Fabrício – Eita, bichinho assim nunca se viu.

Entra Dorotéia .

Dorotéia – Papai, Dr. Fabrício.

Fabrício – Como vai minha noiva?


Dorotéia – Muito bem, obrigada. – estendendo a mão

Coronel – É bom vê-los assim, tão entendidos.

Dorotéia – Percebi que o doutro é um bom homem.

Fabrício – Só agora? – rindo com ar machista

Coronel – Bem, vou deixar vocês a sós, devem ter muito o que conversar. Até mais ver, minha filha.

Coronel se despede e sai.

Fabrício – Então, está ansiosa com o casamento?

Dorotéia – Muito. Tem dias que nem durmo.

Fabrício – Compreendo. Não é todo dia que se pode casar com alguém como eu.

Dorotéia – tirando um saco de papel do bolso – O meu noivo já experimentou esses doces de Muchichin?

Fabrício – Ouvi falar, mas não como doces deste tipo. Prefiro os importados, já comeu brioches? Que pergunta a minha, claro que não. Mas quando estiver casada comigo, comerá apenas brioches.

Dorotéia – Ora, mas não vai me fazer uma desfeita dessa.

Fabrício – Desculpe, mas não quero.

Dorotéia – Mas vai comer. – Forçando Fabrício a comer.

Fabrício – Hum, até que não é ruim. Obviamente não se comparam aos brioches que meu pai... – cai subitamente,

Dorotéia faz sinal para João Calango que estava escondido.

Dorotéia – Venha, João, ajude-me a levá-lo.

João – O que é isso que a senhora deu pra ele?

Dorotéia – Um sonífero. Agora me ajude a carregar esse brutamonte.
Dorotéia e João levam Fabrício até o cemitério.

Dorotéia – Aqui está bom. Agora vamos aos preparativos, logo mais ele deve acordar.

Dorotéia veste um manto negro e uma foice, João sai. Fabrício começa a acordar.

Fabrício – O que aconteceu? – Falando sozinho sem perceber a presença da figura de manto.
Olha em volta, até que vê a morte. Assustado, pergunta – Quem, é você?

Morte – Nunca mais.

Fabrício – O que faz aqui?

Morte – Nunca mais.

Fabrício – Onde estou?

Morte – Nunca mais!

Fabrício – Por que não responde? O que aconteceu comigo?

Morte – Deixa de ser burro! Digo, nunca mais.

Entra João Calango, vestido de diabo com uma planilha na mão, dando ares de ocupado.

Diabo – Esse é meu?

Morte acena positivamente com a cabeça.

Diabo – Ótimo, vamos indo. – Pegando Fabrício pelo braço

Fabrício – Espere um pouco, pode me dizer o que está acontecendo?

Diabo – para morte- Mas eu sempre fico com os mais burros? – Para Fabrício – Você morreu, bateu as botas, dormiu com as formigas, foi para cidade dos pés juntos...

Fabrício – Como assim morri?

Diabo – Assim, morreu. Agora vamos indo, que eu tenho mais o que fazer do que ficar aqui dando explicação pra defunto.

Fabrício – Espera, espera. Quem é você, e pra onde está me levando?

Diabo – Aquele que nome não tem, e tanto nome se dá. O estranho, o desvairado, o pé preto, o encantado nascido nas labaredas do fogo, comando a dança da noite. O dono dos sete caminhos, aquele expulso do reino, vagando pelo mundo, o imundo, o encarnado o sete peles, o cramunhão. Eu sou o diabo!

Fabrício – O diabo, então eu to indo pro inferno é?

Diabo – Olhando para a morte – Sempre, sempre os mais burro! – Para Fabrício – Não, amigo, vim lhe buscar para levá-lo ao circo, que acha?!

Fabrício – Sem julgamento?

Diabo – É, antes tinha toda essa conversa de julgamento e o diabo, mas dava muito trabalho. Então fizemos um grande acordo com o supremo – apontando para cima- Agora eu venho e levo. Depois se por acaso quiser, pode fazer uma apelação.

Fabrício – com advogado?

Diabo – Não, com um padeiro.
Fabrício – Mas aonde eu vou achar advogado se estou morto.

Diabo – No inferno. Tão tudo lá. Agora vamos, que não tenho o dia todo.

Fabrício - Seu diabo, eu sou Fabrício Palermo, meu pai é Diogo Bezerro Palermo, um homem muito rico e poderoso. Com certeza, deve haver algo que se possa fazer para mudar isso, não é?

Diabo – Seu pai pode ser o marreco saltitante, o pônei falante, pouco me importa, e seu dinheiro não tem valor aqui. Ou não sabe.

Fabrício – Não sei o que?

Diabo – O inevitável há tudo iguala meu amigo.

Fabrício – Mas não há nada que eu possa fazer? Não quero ir para o inferno.

Diabo – Ninguém nunca quer. O que andam falando do inferno por aí?


Fabrício – Ora, que é a danação eterna, o mar de fogo, dor e ranger de dentes...

Diabo – Bom, é isso mesmo, mas eu acho ótimo. Agora, vamos?

Fabrício – Deve haver alguma coisa que eu possa fazer...


Diabo – Olha, já que insiste tanto. Acho que tem sim.

Fabrício – Tem? E o que é? Por favor, senhor diabo, eu faço qualquer coisa.

Diabo – Campeonato de pinga!

Fabrício – Como é?

Diabo – Se você me vencer em um campeonato de pinga, te liberto! E digo mais, a dona morte ali, lhe manda de volta.

Fabrício – E é?

Diabo – É!

Fabrício – Então está fechado!
João tira uma garrafa de pinga do bolso e começam a beber. Porém, disfarçadamente, João joga fora o liquido do copo, toda vez que vai beber.

Diabo – Vamos lá, mais um!

Fabrício – Pode mandar!

Diabo – Você é bom de bico, hein. Mais um!

Fabrício – Bom, sou bom, de quico! – Ficando bêbado – rindo

Diabo – Nunca vi homem tão valente! Mais um!

Fabrício – Valente sou eu! Imagina, bebendo aqui com o próprio capeta!

Diabo – Olha a intimidade, hein. Só mamãe me chama de capeta!

Fabrício – E por acaso diabo tem mãe, é?

Diabo – E por acaso não tem? Mais um!

Fabrício – Não sabia, que... – Cai.

Diabo – Mais um?

Fabrício não responde, Dorotéia tira o disfarce.

Dorotéia – Ele tombou mesmo?

João, empurra Fabrício com os pés.

João – tombadíssimo!

Dorotéia – Ótimo, deixe a garrafa ai. E vá chamar meu pai, conte que encontramos Fabrício, e que eu já o espero aqui.

João sai.

Dorotéia – Agora o toque final. – Tira um saco de esterco de cabra e joga por cima de Fabrício.

João volta com o coronel. Fabrício dá sinais de que está acordando.

Coronel – Então, calango, onde está... – Coronel percebe Fabrício

Dorotéia – Aí está, coronel Salustiano, o noivo que o senhor me arrumou!

João – Mas que bodum! É pinga?

Dorotéia – Pinga e coco de cabrita!

Coronel – De cabrita?

Fabrício – Coronel, o senhor não vai acreditar no que me aconteceu, eu morri, encontrei com o diabo ...

Coronel – Diabo tu vai vê, safado! Onde está o ouro?

Fabrício – que ouro?

Coronel – Que tirou da minha cabrita!

Fabrício – Não foi nada disso...

Coronel – Arre! Pois trate de voltar já para suas terras, e diga ao seu pai, que não haverá casamento.

Fabrício – Por favor, coronel, deixe eu explicar

Coronel – Já ta explicado. E vá antes que eu lhe arranque o couro!

Fabrício sai correndo.

João – Nunca vi homem tão valente.

Dorotéia – Está satisfeito, meu pai?

Coronel – Desculpe não lhe dar ouvidos minha filha.

Dorotéia – Quer dizer que o senhor irá deixar eu escolher com quem vou me casar?

Coronel – Isso é que não! Vou logo arrumar-lhe um noivo.

Dorotéia tira o saco de papel do bolso.

Dorotéia – Papai, o senhor já experimentou os doces de Muchichin?


Fim.


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