Textos

A Farsa do Casamento Adulterado

Rafael Figueiredo


A Farsa do Casamento Adulterado



Palhaço:
Das imortais tradições humorísticas
Irmãos de sina e de fome
Surgem o sonho e a fantasia
Salvando a vida do homem
Enquanto a língua herege
Frente à figura divina
Ergue um deus por esquina
Que só ao rico protege
Aqui senhoras e senhores
Gargalhando na face do sol
Desperta do sonho invisível
Nos passos do povo caminha
A quimera subterrânea
De outros reinos vizinha

Sejam bem vindos
Filhos de toda miséria
Que o riso é a graça da alma
E a alma o gozo da terra!




Padre:
Casar vou estes dois
Em nome de nosso senhor
Que tanto poder investiu
Em homem de pouco valor

Pergunto a noiva primeiro
Se aceita o matrimonio
Casando com este homem
Que troca amor por dinheiro

Pois sabe-se há muito tempo
Que noivo aqui em questão
Casaria com jumento
Se esse fosse barão

Noiva:

O que diz é verdade, bom padre
Não caso por que me agrade
Caso por ordem paterna
Meu pai ordena que case

Prometeu a esse estrupício
Uma cabra bendita
Que caga ouro maciço
Nas mãos de quem acredita


Padre:

E você figura desdita
Casa de bom grado
Com esta moça aflita
Ou tem parte com o diabo
E casa pela cabrita?

Noivo:

Caso por que caso
Caso por que é domingo
Caso pelo acaso
De ter a sorte comigo

Encontrar nesse mundo
Um bicho desse feitio
Que sai ouro dos fundos
Assim nunca se viu


Padre:

Então pergunto ao povo
Se há aqui nessa igreja
Um vivo que se apresente
E diga algo de novo
Que salve a noiva urgente
Dos braços desse estorvo
Todos levantam os braços

Padre:
Parece que sim
E é grande o empenho
Digam pra mim
Com todo o engenho

Um motivo que valha
Algo de fato
Que livre a moça
Desse canalha

Povo:

É chato, é lerdo
É rude, um grude
Cheio de si
costuma enjoar
não canta, não bebe
Não sabe beijar
É bobo, sem graça
Menino mimado
De tudo reclama
não limpa, não passa
O ponto na cama não bate,
só late, não morde


Virtude nenhuma
Tampouco coragem
Além de um detalhe
Um apego secreto
De hábito estranho
Costuma dormir
Sem ir tomar banho

Noivo foge

Padre:

O noivo fugiu
Não era para menos
E agora menina
O que é faremos

Noiva:

O padre fique tranquilo
Preferia casar com um rato
A de fato casar-me com aquilo

E ainda trago comigo
Um trunfo muito astuto
O mais antigo do truques
Um noivo substituto

A noiva levanta saia e surge outro noivo.


Padre:

O que fazia este tempo todo, vivente
Deve estar tão cansado


Noivo:

Estou é com a língua dormente
E o queixo suado


Noiva:
Case-nos logo bom padre
Antes que meu pai se zangue
E essa santa igreja
Fique manchada de sangue

Padre:
Adulterados estão os autos
E o fato consumado
Casa agora satisfeita
A noiva daquele safado


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