Textos

Burgos, o rei idiota (Comédia picaresca) - Peça em dois atos

Rafael Figueiredo


Burgos, o Rei Idiota.


O Palhaço
Bem vindos ao reino de Óc
Onde um rei avarento
reina soberano
Sobre um povo faminto
Há quem diga que nada de novo
tem esse meu assunto
Mas digo à aqueles que escutam
Há força do povo
Na forca e no verso
E ao que tudo indica
O reverso se dá
No instante
Em que um pouco de verso
Na boca do povo
Roda inverso
O rumo da história
E a viva memória
Do Povo se dá!
Pois não sonha o tirano
E a sua falência
Na soma dos anos
Reflete o engano
Da pouca inteligência
E os fatos em sumo
Constatam que o humos
É o conteúdo
Que abunda e transborda
De sua cabeça
De homem miúdo
Por isso, não julguem meu verso
Tão pouco inédito
Quanto preciso
Pois, se é a língua do povo
É, também, do povo o juízo.


















Musica

A vida é corda bamba
Ta difícil
Balançar pra não cair
Dobrando pra não quebrar

As vezes parece até
Que to no hospício
Quem ta dentro vê de fora
Quem ta fora tem que entrar

E vamos redobrando a paciência
Evitando o desperdício
Para ver no que que dá

Rebolando com um pouco de juízo
Quase dá pro que é preciso
A vida há de melhorar.







Toque de clarim

Anunciante - O grande rei Burgos, soberano de Ó, está chegando!
Entram, Mendinho e o Rei.

Rei – Então, Mendinho, quais são as noticias do meu reino?
Mendinho – Não são nada boas, meu rei.
Rei – Nada?
Mendinho – Nada.
Rei – Você nunca tem boas notícias, Mendinho?
Mendinho – A verdade, meu senhor, é que o povo está cada vez mais pobre e faminto. E depois do seu ultimo decreto sobre os sapatos...
Rei – O que tem meu decreto?
Mendinho – Depois que o senhor ordenou o fim dos pares de sapatos, todos ficaram um pouco revoltados.
Rei – Mas o que há com essa gente, Mendinho, meu decreto foi para que todos usassem pés direitos.
Mendinho – Nos dois pés, senhor.
Rei – Exato! E o que há demais nisso?
Mendinho – Todos que seguiram sua ordem ficam andando em circulo pela cidade, majestade, e o resto não tem como comprar mais de um par de sapatos.
Rei – Esse povo faz alarde por nada. O que tem mais pra mim?
Mendinho – Bom, já que o senhor pergunta, seu outro decreto também causou um péssimo impacto.
Rei – Qual? Sobre a proibição de chover nas quintas?
Mendinho – Não meu senhor.
Rei – Que bom, jogo pólo com o bispo nas quintas.
Mendinho - O que o senhor proíbe o povo de ficar doente.
Rei – E o que tem isso?
Mendinho – Pessoas ficam doentes, majestade.
Rei – Agora não ficam mais.
Mendinho – Meu rei...
Rei – Ora, Mendinho, você está me deprimindo.
Mendinho – Majestade, o povo está cada vez mais insatisfeito com tudo isso.
Rei – Pois vou decretar que fiquem satisfeitos!– Por acaso não há ninguém feliz em todo o reino de Óc? E aquela multidão que estava presente em meu ultimo discurso?
Mendinho – Eram apenas três homens e uma cabra, majestade.
Rei – Sei...
Mendinho – E, assim que o senhor chegou, a cabra foi embora.
Rei – Maldita cabra!
Mendinho – Pois é...
Rei – Mas e os crimes, diminuíram?
Mendinho – Aumentaram, majestade.
Rei – Sei... Então, não tem nada de bom, né? É só desgraça, desgraça. Todo mundo odeia meus decretos...

O Bispo é anunciado e entra alvoroçado.

Rei – Quem bom vê-lo bispo Bezerros, talvez tenha algo para me alegrar!
Bispo – Infelizmente não, minha majestade
Rei – É, e por que teria?
Bispo –Venho falar-lhe de um certo homem, chamado Ladislau, que se diz cientista. Está causando um tremendo alvoroço pelo reino, com mentiras, enganações...
Rei – Que tipo de enganações?
Bispo – Ideias falsas e herege! Imagine o senhor, anda dizendo aos seus fiéis súditos que vivemos em uma bola de terra. Que flutuamos por aí. E que o sol, o sol, majestade, não passa de uma bola de fogo no céu! O sol!
Rei – Que absurdo, todos sabemos que o sol é o terceiro olho de deus. Que ascende e apaga, para nossa alegria.
Bispo – E o que faremos, majestade?
Rei – Mande chamar este homem aqui, imediatamente.
Bispo – Eu mesmo irei buscá-lo, meu senhor. (Bispo sai)
Rei – Mendinho, onde está meu bobo? Ele já não deveria estar aqui?
Mendinho – Vou chamá-lo, majestade.
Rei – Adoro aquele bobo!

Mendinho sai, rei fica sozinho, enquanto fala sozinho, limpa o nariz de forma asquerosa, depois limpa a mão na roupa, quando Mendinho retorna, o rei tenta disfarçar.

Rei – Então?
Mendinho – Parece que ele sumiu, majestade. Encontrei esta carta em seus aposentos.
Rei – Pois então leia, talvez tenha sido seqüestrado por piratas.
Mendinho – Piratas? Aqui em Ó?
Rei – Há piratas em todos os lugares, Mendinho, onde mesmo se espera pláh! Lá estão os piratas.
Mendinho – Certo, majestade, como o senhor quiser, vou ler a carta.
Rei – Deixe-me sentar.
Mendinho – (lendo a carta) Fui embora do reino de Ó. Não me procurem.
Rei – Só isso?
Mendinho – Só.
Rei – Foram os piratas, Mendinho, o bobo adorava este trabalho.
Mendinho – Não creio majestade.

Bispo entra, carregando alguém pela roupa, joga-o em frente ao rei, o rapaz cai de joelhos.

Bispo – Este, majestade, é este o herege que tem espalhado idéias absurdas pelo nosso amado reino.
Rei – Pois bem, se não, vejamos. Qual o seu nome?
Ladislau – É Ladislau, majestade.
Rei – Então, Ladislau, o que tem para dizer à nós sobre suas ideias?
Ladislau – Majestade, tudo que digo é verdade, e posso provar.
Rei – E o que é? Que estamos todos em um ovo de galinha voador?
Ladislau – Meu rei, essas são palavras que não dizem nada.
Bispo – Está chamando o rei Burgos de burro, insolente?
Ladislau – De forma alguma, mas o que digo é verdade. O mundo é redondo...
Rei – O mundo é redondo, o mundo é redondo. Quanta bobagem, todos sabemos que nosso mundo é como uma bandeja.
Bispo – Que o grande senhor segura em uma das mãos.
Mendinho – (Falando baixinho) – E com a outra coça o traseiro.
Rei – O que disse, Mendinho?
Mendinho – Arruaceiro, majestade, disse que este homem é um arruaceiro.
Rei – Tem razão, Mendinho.
Ladislau –Como disse, majestade, eu posso provar.
Rei – Pode?
Ladislau – Aqui está. (entregando muitos papeis)
Rei – O que é isso?
Ladislau – Cálculos científicos, majestade.
Rei – Bispo, diga algo.
Bispo – Meu rei, este homem está louco, basta o senhor olhar para o horizonte. Está vendo, é uma linha reta.
Rei – E como você chama este lugar, Ladislau?
Ladislau – Planeta terra, meu rei.
Rei – (rindo) planeta? E por que não redondeta? (Ainda rindo)
Bispo – Excelente, majestade.
Rei – Mendinho, Ladislau será o novo bobo.
Ladislau – Senhor, com todo o respeito ...
Rei – É isso ou mando arrancar-te a cabeça.
Ladislau – Serei o novo bobo.
Rei – Ótimo, assim poderá dizer as bobagens que quiser. Medinho leve-o.
Mendinho – Sim, majestade. Venha comigo, senhor.

Ladislau e Mendinho saem.

Bispo – Muito bem decidido, minha majestade. Agora vou levar estes papeis para o fogo.
Rei – Como quiser.

Bispo sai, volta Mendinho.

Entra a criada e dois guardas. A criada grita assustada.

Criada – Deixem me entrar seus brutamontes.
Rei – O que é isso?
Criada – Meu rei, é a rainha.
Rei – O que tem minha esposa, criada, vamos fale.
Criada – Ela é uma burra!
Rei – Como se atreve, guardas cortem a cabeça!
Criada – Não, meu senhor, ela virou um asno!
Rei – Como é? Explique-se, mulher.
Criada – Foi assim, majestade: Quando acordei hoje pela manhã, comi pão seco com banha de porco, como sempre faço, fui na patente, aquela bem longe do castelo, pro bodum não infestar o castelo. Depois fui saber das ultimas noticias com o menino cotôco, o senhor sabia que esse menino sabe de tudo que acontece por aqui? Pois bem, logo depois, vim para o castelo, encontrei a Maria que me contou...
Rei – O que importa?! Quero saber da rainha!
Criada – Nossa, quanta pressa. Cheguei no quarto da rainha e ela havia virado um asno! Pronto.
Rei –E como pode afirmar uma coisa dessas?
Criada – Por que a burra estava usando uma coroa e tinha os cascos pintados. De rosa.
Rei – Quanto infortúnio, Mendinho, vá até lá e veja o que está acontecendo.
Mendinho – Sim, majestade.
Mendinho sai
Rei – É coisa de pirata.

Mendinho volta com uma burra usando uma coroa.

Criada – Ai está, majestade, veja o senhor mesmo.
Rei – Mas é verdade, alguém transformou a minha doce rainha em um asno!
Mendinho – Duvido que seja o caso, majestade.
Rei – (Olhando diretamente para Mendinho) – Eu não sei por que você nunca acredita em nada. Não está vendo a coroa?
Mendinho – Majestade, de certo que tem outra explicação...
Rei – Cale-se! É ela mesma, veja, tem até o mesmo olhar de minha querida Michelin.
Criada – O que vamos fazer agora, meu rei?
Guarda – Majestade, se me permite, na cidade há um homem que diz ter sido transformado em burro certa vez, talvez ele possa ajudar.
Rei – E quem é este homem?
Guarda – Apulecio de Várzea.
Rei – Por que esse nome me soa familiar?
Mendinho – Por que o senhor o condenou a guilhotina ontem, majestade. Deverá ser decapitado em duas horas.
Rei – Pois há tempo de sobra, andem , guardas, vão busca-lo.
Guardas – Sim senhor, majestade!
(Guardas saem – Fim do primeiro ato)


Segundo ato

Cena: Apulécio está de pé com as mãos amarradas, um executor de capuz espera para cortar sua cabeça, o povo está em volta reunido para ver a execução.

Executor – Apulecio de Várzea, será executado por crimes contra a coroa. Suas ultimas palavras.
Apulécio – No lombo do meu sonho, estala medonho chicote. Deste mundo insone, podando tudo que pode. A lança, alcança o impossível. Um plano absurdo de um sono confuso. A poesia morta na tinta escura. Mas é a tua vez sistema corrupto, que tudo que vê, logo consome. Até a desgraça virou produto. E tu, contando teu lucro por cima da fome. Mas digo a estes moinhos, o inevitável a tudo alcança. Matam um poeta, mas não morre a esperança. E será minha quimera sonhada, em outros reinos cantada. Viva o sonho do poeta! Viva a festa das cabeças cortadas!

Ouve-se um som de sino, e um homem gritando, “ Leproso, passando, leproso passando” E todos se viram, o braço do homem que segurava o sino sai voando pelo ar, todos riem, enquanto isso Apulecio aproveita para fugir. Quando o executor se da conta, ordena que os guardas o persigam. As cenas de fuga, terão um teor cômico de perseguição, com musica e sonoplastia. No fim os guardas perdem Apulecio de vista, pois o mesmo havia se disfarçado e dado aos guardas outra direção para seguir. A cena limpa e fica apenas Apulecio, tira o disfarce e desamarra as mãos, enquanto fala sozinho.

Apulecio – Crimes contra a coroa.

Enquanto Apulecio fala, dois guardas surgem guiado pelo homem leproso. Anda até Apulecio sem que ele veja a param logo atrás dele. Haverá quebra de quarta parede, pois ele irá virar-se para a plateia enquanto fala, e esta será a única que verá os guardas.

Apulecio – E os crimes dessa tal coroa? Não tem pão, não tem trabalho, não tem nada. E ainda por cima botam esses brutamontes para bater na gente de tempo em tempo. É cada bicho feio que esse rei contrata para guarda! (rindo) São todos horríveis! Parecem ter uma batata na boca, (Imita o som da fala dos guardas) E como fedem, é terrível, sinto o cheiro deles daqui. Meu deus! Parecem que estão aqui! Estão?

Vira-se e percebe os guardas. Estes o seguram antes que ele possa fugir.

Outros dois guardas, surgem.

Guarda 1 – Viemos buscar este homem.
Guarda 2 – Não será preciso, vamos leva-lo para o carrasco agora mesmo.
Guarda 1 – De forma alguma. O rei Burgos quer vê-lo.
Guarda 2 – Este verme?

Apulecio solta-se.

Guarda 1 – Este mesmo.
( Os primeiros guardas saem, antes um deles da uma cacetada em Apulecio)
Apulecio – E o que quer o rei de mim?
Guarda – A rainha teve um problema e você vai ajudar.
Apulecio – Não estou interessado.

Apulecio tenta seguir na direção contraria a dos guardas e eles o pegam cada um em um braço e o levam.
No castelo:

Os guardas entram e largam Apulecio na frente do rei.

Guarda – Este é Apulecio de Várzea, majestade.
Rei – Podem sair. Você é o homem que diz ter sido transformado em burro?
Apulecio – Digo e redigo.
Rei – Então, irá me ajudar.
Apulecio – Isso depende, majestade.
Rei – Depende?
Apulecio – Sim, senhor, depende?
Rei – E depende do que, insolente?
Apulecio – Ora, o senhor me condenou ontem mesmo a guilhotina, e agora pede minha ajuda. Presumo que logo depois irá mandar-me de volta, não é?
Rei – Claro.
Apulecio – Então não posso lhe ajudar senhor.
Rei – Se nega a prestar um serviço ao seu rei?
Apulecio – Tecnicamente, majestade, neste exato momento minha cabeça estaria em uma cesta, graças ao senhor.
Rei – e o que espera que eu faça?
Apulecio – Livre-me da guilhotina, ora.
Rei – Isso é impossível.
Apulecio – Então pode mandar-me de volta agora mesmo.

O rei olha para a burra, e pensa.

Rei – Está certo, vou livrar-te da morte. O que não faria pela minha querida rainha. Mas se não cumprir com sua parte, mando de volta. Mendinho, quais são as acusações contra este homem?
Mendinho – São mais de cem, majestade.
Rei – Mais de cem?!
Apulecio – Tenho uma vida agitada, majestade.
Rei – Tanto faz, de a carta de liberdade a ele, Mendinho.
Mendinho – Sim senhor, majestade.
Rei – Satisfeito?
Apulecio – É, dá pra começarmos. Conte-me, majestade, em que posso lhe ser útil?
Rei – A rainha. Foi transformada em um asno.
Apulecio – A é?
Rei – Sim, hoje mesmo. Veja.
Apulecio – Estou vendo vossa majestade. E me diga, o senhor sabe quem foi que a transformou?
Rei – Não, mas desconfio dos piratas.
Apulecio – É provável, majestade, onde menos se espera, plá! Lá estão os piratas.
Rei – Isso mesmo, foi exatamente o que eu disse a Mendinho mais cedo.
Apulecio – Deixe-me ver.

Mendinho leva a burra até Apulecio, que finge estar se comunicando com o bicho.

Apulecio – Hum. Uhum.
Rei – O que ouve? O que ela está dizendo?
Apulecio – É de fato a rainha Michelin.
Rei – Viu Mendinho, homem de pouca fé, eu lhe disse!
Mendinho – Sim, meu rei.
Rei – E o que mais ela está dizendo?
Apulecio – Diz que está com fome e muito cansada.
Rei – Pobrezinha, vou mandar trazer-lhe algo para comer.
Apulecio – Ela diz que deseja que o senhor lhe arrume um bom quarto e lhe leve a comida até lá.
Rei – Mas ela tem os aposentos reais.
Apulecio – Ela diz que sente vergonha de ser vista assim, portanto deve ter um quarto só para ela. E que apenas eu poderei ficar neste aposento por ser o seu interprete.
Rei – Está certo.
Apulecio – Ela quer que o senhor mande assar um pato, duas marrecas e algumas batas. Ah, que mande levar uma dúzia de garrafas de vinho também.
Rei – Uma dúzia?
Apulecio – Os burros são mais forte para beber, majestade.
Rei – Tá certo. E o que ela diz sobre quem a transformou em asno?
Apulecio – Deixe eu perguntar. Hum. Sei. Ela disse que não consegue se lembrar de nada. Mas quando acordou sentiu cheiro de rum.
Rei – Os piratas.
Apulecio – Mas acha que se descansar e comer um pouco talvez se lembre mais.
Rei –Tem razão, ela precisa de descanso, leve-os ao quarto, Mendinho.
Mendinho – Sim, majestade.
Mendinho sai com Apulecio e a burra. O tempo da peça para, entra o palhaço.
Palhaço – O Tempo passou... Por meses, Apulecio, ao rei Burgos enganou. O convencendo de tudo que queria, aos pobres deu comida e aos ricos deu azia. Até o tal decreto do sapato ele revogou, coisa que todo o povo aprovou. O rei sempre acreditava, em qualquer história que lhe contava o interprete da tal rainha que em asno de detinha, a dizer batendo as patas aquilo que ela então queria. Mas certo dia, à tardinha, chegou um mensageiro, que trazia um pombo esperto, que voou o mundo inteiro. Trazia má noticia, o bichinho aventureiro, mudando o destino de Apulecio, trapaceiro.

Volta a peça.

Mensageiro – Majestade, trago noticias do reino de Urge. É uma mensagem real.
Rei – Pode falar.
Mensageiro – Rei Burgos, soube de sua desventura, gostaria de ajuda-lo. Hoje mesmo encontrei com sua majestade, a rainha Michelin, ela não pode me ver pois estava dançando com seu bobo. Lembro-me dele da ultima visita que lhe fiz, ele não tinha graça. Mandei prender os dois e estou lhe enviando está mensagem para que me diga o que deseja que faça com estes traidores. Assinado rei Trouxa.
Rei – No reino de Urge, isso é um absurdo. Mendinho, mande chamar aquele pilantra do Apulecio.
Mendinho – Sim senhor, majestade. (Mendinho sai)
Rei – Todo este tempo eu acreditando que minha esposa havia sido transformada em um asno. Quando na verdade ela foi raptada por aquele traste.
(Mendinho volta)
Rei – Então Apulecio de Várzea, esteve me enganando este tempo todo não é?
Apulecio – Não sei do que se trata, majestade.
Rei – Trata-se seu vagabundo, que a rainha está no reino de Urge.
Apulecio – É rápida essa burra hein, a pouco estava com ela, e ela me contava que o senhor...
Rei – Cale-se! Já estou sabendo de sua farsa, passou meses me enganando com essa conversa, só para encher o bucho as minhas custas.
Apulecio – Com todo o respeito, majestade, foi o senhor que se enganou, eu apenas dei um empurrãozinho.
Rei – Insolente! Guardas levem este estrupício daqui, e cortem a cabeça!
Guardas – Sim senhor, majestade.

(Todos saem)

Na cidade todos estão novamente reunidos para ver a execução de Apulecio.

Apulecio –Aqui estamos novamente.
Guarda – Pois é.
Apulecio – Os sapatos, estão bem ?
Guarda – Estão. Obrigado.
Apulecio – De nada.
Guarda – Triste ter que fazer isso.
Apulecio – É a vida, o inevitável a tudo alcança, não é?
Guarda – Verdade.
Apulecio – Será que posso dizer umas palavras antes?
Guarda – Pode, claro. Se for rápido, tenho um compromisso logo mais.
Apulecio – Tá certo.
Guarda – Ei, seus cangurus, escutem o homem morto.
Apulecio –Cidadãos de Ó, chegará o dia em que este rei tirano não se servirá mais de vossa dor e miséria. Mas até lá, saboreiem o que podem, durmam se puderem e acordem se tiverem sorte. Finjam que a vossa desgraça não e vossa, mas do outro que ao lado late sua fome e desventura. Andem pelas ruas deste reino, e cantem o que for que lhes venha à cabeça, pois o dia em que este rei não engordar a vossas custas, este será o dia de sua morte, pois até lá trabalharão para ele, e nada terão se não as poucas migalhas que lhes sobram. Ou não percebem que nos pregam em duas cruzes? A primeira delas é a cruz do trabalho, do trabalho sem descanso, mal pago. Ora, sei que muitos de vocês criam patos, plantam batatas e entregam todo a produção ao rei, toda! E mesmo aqueles que criam carneiros, mal conseguem se alimentar. Enquanto isso o rei, o bispo e todo sua laia engordam a vossas custas. E outra é a cruz da falta de trabalho, da fome...
Povo – Ele tem razão não é? (Falam uns para os outros)
Carrasco – Agora já chega.
Apulecio – E você, meu danoso executor, quando foi a ultima vez que comeu um bom assado? Bebeu um bom vinho?
Carrasco – O que importa?
Apulecio – Ora, não seja rabugento. Diga? Quando foi?
Carrasco – (envergonhado) Não lembro.
Apulecio – Pois veja só, passa a vida seguindo ordens, matando gente igual a você, que mal consegue comer dia sim dia não, e ainda quer que me cale?
Homem (defendendo o rei ) – Nosso rei é soberano.
Apulecio – É um tirano, isso sim. Enquanto estamos divididos ele esta lá, empanturrado e preguiçoso. Três refeições por dia? Quantos de vocês faz três refeições por dia?
(Silencio)
Apulecio – Pois vejam só, o rei faz oito!
Mulher – E o que você sugere? O que podemos fazer? Ele é o rei.
Apulecio – que derrubem o rei!
(Alvoroço)
Apulecio – Isso mesmo, derrubem o rei Burgos!
(Alvoroço aumenta)
Apulecio – Vão, derrubem aqueles muros!
(O povo começa a gritar)
Apulecio – Isso! Mostrem ao rei Burgos que um tirano nunca será mais forte que o povo!
(Povo sai )

O carrasco olha em dúvida, Apulecio convence-o de ir com um aceno de cabeça, carrasco sai, Apulecio solta-se das cordas, e sai assoviando.

Palhaço- E daquele dia em diante, todo rei soberbo e arrogante, passou a saber o valor do verso, na boca de um poeta errante. Quanto a Apulecio de Várzea, uns dizem que sumiu outros nunca existiu, e que essa é uma história inventada. Mas de que importa? Se todo o mundo é um invento, um descuido de um deus desatento, um sonho sonhando outro sonho num sono de face acordada. Talvez, o atento destino, nas velas nos sopre o segredo: Não deixe que o medo inunde o fundo do mundo de medo. E desperta do teu abandono, antes que o mundo te dome, gritando na boca obscura, a fome do mundo tem fome. Escuta, o homem pensa ser dono de tudo, e esse dono do mundo, devora, sem distinção, aquilo que te prestam as horas. Teu tempo, teus dias, tua vida estendida feito linha, fina e delicada, nas mãos dessa maquina, declina o pouco que tem em troca de quase nada. Aviva teu sonho, acorda dessa dor opaca, teu mero instante vale mais que qualquer pataca. Não há paraíso distante, troco meu lugar no céu, por três leite de vaca! A fome é a urgência do povo, e se não pode dar conta esse deus, que comece tudo de novo.

Fim


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