Textos

O Auto de João Benedito (Semi-poema dramático)

Rafael Figueiredo


O Auto de Benedito Parafuso
A peça trata da história de Benedito, um homem simples fruto do êxodo rural, que passou a vida dedicando-se a trabalhar. Sem nunca colher os frutos desse trabalho ele percebe que está desperdiçando sua vida e decide aventurar-se pelo mundo.
Anfitrião, o narrador, representa a porta para o imaginário através da palavra.
O cenário pode ser quase nulo, tendo apenas uma cadeira para representar a casa e a mala que o protagonista levará consigo. Tratando-se de uma peça musicada, em alguns momentos terá a entrada do palhaço, personagem que deve ser representado por um músico.
A Criatura deve ter o corpo coberto de palha e os olhos vendados, O Homem deve ser representado por um Pantalone.
Abertura: Anfitrião surge com as cortinas ainda fechadas, que irão abrir lentamente durante o poema de abertura)


Palhaço:
Abrem-se as cortinas!
O palhaço, poeta, corre o verso que o universo encerra.
Liberta voa, a palavra soa.
É chave agora, e sem demora abre portas retas, tortas...
Adentra salas modestas, salões em festa.
Balão em fresta espreme e passa.
É borboleta voando leve, vem dar bom dia.
Pede emprestado o que é do silêncio, um momento breve.
Na folha escreve, no ar ecoa...
É cada verso, que coisa boa.
Mas, quando o poeta aponta a pena
Tenho pena eu pra quem a ponta da pena do poeta aponta.
(Luz leve)
Anfitrião: Era uma vez um homem, que em barbantes se equilibrava, pelos mesmos fios que era conduzido. Certo dia, por acidente soltou-se um fio, e com o braço dormente levou a mão ao rosto. Cansado de ser guiado, soltou-se logo daquele enrosco. Juntou o pouco que tinha, um filtro de café, duas bananas e uma lata de sardinha. Algumas roupas para o frio, uma foto antiga, um poema nunca leu. Olhou-se no espelho e sorriu.
(Música: O Palhaço)
Benedito dança com um velho macacão de operário, enquanto arruma a mala. Ao abrir a mala um balão vermelho sobe no ar, ele pega antes que suma, segura o balão por alguns instantes e o põe de volta na mala, com carinho, segue a cena até o fim da música, quando Benedito para de frente para a porta por algum tempo e sai, sumindo do palco.)
Anfitrião: Pôs o pé na estrada, rumo ao nada. Solto no espaço em cada passo, na direção do que nunca existiu. Viu a noite virar dia, o dia virar noite, e a noite em outro dia. Enfrentou sol, chuva e ventania. Cruzou vales, montanhas, ruas estreitas, certa vez até tocou de leve a asa de uma borboleta. Mas certo dia, quando andava por uma encruzilhada, depois de tantas alegrias, assim do nada, surgiu uma criatura sombria. Como nunca havia antes visto, coisa tão sinistra, levou um pouco de água as vistas. E, tendo certeza que tal aparição, não era miragem, truque da fome ou assombração, foi logo dizendo: opa! E estendendo a mão. Mas a criatura, vazia de qualquer simpatia, disse o que sempre dizia:
As luzes ascendem, surgem no palco Benedito e a Criatura.
Criatura: Sou o resíduo tóxico, o lixo dos teus mares, sou a fumaça repugnante de tuas fábricas, voo, pelo ar, cavoco, sufoco e mato! Sou a lama esquecida, a cinza e o óleo...sou teus restos, teus dejetos, a fome, o frio, sou a seca do rio. E corto o fio que sustenta essa terra!
Benedito - Então é o diabo?
Criatura: (irônica) Me fala do anjo caído de braço quebrado, mas a vaidade de deus foi criar o diabo. E diabo, diabo é o homem, que mata de sede mata de fome. Mata mato, bicho , gente. Envenena a semente, a mente e a refeição. E para isso não tem nome? Por isso lhe digo amigo, diabo, Diabo é o homem!
O palco se esfumaça, desaparecendo a Criatura, volta o narrador.
Anfitrião: E, como e em um passe de mágica, ávida, soturna e sombria. Pariu trágica criatura, o que a fumaça escondia. O homem que tudo devora e tudo consome, que com o próprio pão produz a fome, e cria a doença para vender a cura. Enquanto jura em nome de um deus que mata. Faminto que só ele, tem o pança de um elefante e a cabeça de uma barata. Com a boca escancarada, comendo tudo que vê pela frente, falando em tom elegante, comprando e vendendo gente, ao ver nosso viajante, chega a ficar a língua dormente. Rocando o estômago e rangendo os dentes, aproxima-se do nosso andante, com uma oferta mais que atraente.
Música de fundo para o Homem que se aproxima lentamente de Benedito.
Homem - Olá, eu vendo falta!
Benedito - Falta?
Homem - Sim, desejo, cobiça, ganância, música alta...
Benedito -não me falta.
Homem - Ah, falta! Já experimentou?
Benedito -não,não...mas não falta.
Homem - Então não sente o vazio?
Benedito - vazio?
Homem - Sim, essa coisa oca dentro da gente...
Benedito -Ah, fome? Tenho.
Homem - Não!Falta...
Benedito -mas não falta.
Homem - E se, eu te der um pouco de graça?
Benedito -de graça?
Homem - Sim, de graça
Benedito -que graça, de graça mesmo?
Homem - De gracinha!
Homem – (Toma a posição por trás de Benedito, e aponta-lhe um fósforo a frente do rosto, depois ascende. Benedito se assombra com o brilho do fogo que logo se apaga) - agora sente o vazio?
Benedito -quero!
Homem -E quanto tem aí?
Enquanto Benedito procura em toda parte algo de valor para trocar, o Homem vai se dirigindo à plateia, mas antes de chegar pode ver que ao mexer em suas coisas o balão sobe.)
Homem - Este! Este ai! Ah, este tem grande valor.
Benedito - Mas isso eu não posso lhe dar.
Homem - Dar?! Não, você não me dá nada, nós trocamos, nós negociamos! E posso lhe dizer, que com isso posso lhe dar muita falta!
Homem - Mas...Muita quanto?
Benedito - Muita! O suficiente para esquecer disto...
Com os olhos marejados Andarilho entrega o balão ao Homem que devora o que recebeu ali mesmo, e saciado, segue em direção a plateia, deixando Benedito para trás.


Homem:
O meu adeus aqueles que ficam.
De fato, não sou lá muito de se admirar.
Mas é verdade, me disseram que eu tinha que vencer!
Vencer na vida, enricar!
Como nunca tive dom nenhum, precisei improvisar.
Logo descobri que todo mundo quer aquilo que não tem, e quando tem, valor não dá.
Então, vendo falta, que logo volta a faltar,
Hoje tem, amanhã acabará.
E, enquanto a verdade tem preço, sai graça enganar.
Se de vocês eu me despeço, em outra esquina apareço.
Mas vivo dentro de suas casas, e nem podem me notar.
Agora, vou seguindo meu caminho
Agradeço a paciência e a atenção
de quem parou pra me escutar!
(Música e fumaça para saída do Homem)
Benedito fica no centro do palco, gastando todos os palitos de fósforos. Volta o narrador olhando para a plateia e para Benedito.
Cena tempo. As luzes e a fala do narrador em conjunto aos movimentos de Benedito, devem dar a ideia da passagem de tempo.
Anfitrião: E como sempre faz pouco onde não há lucro, o homem se vai. Deixando nosso andarilho com os olhos vazios, por de baixo de pedras, vasos de flores e solas de sapatos a procurar sempre um pouco mais de falta. Mas afinal a falta sempre acaba... e o tempo-mundo essa máquina de comer gente pôs em nosso viajante esses olhos de vidro trincado. Agora, Cansado e com frio adormeceu, num barco, esquecido à margem de um rio. E como que ao acaso, seu destino à correnteza seguiu.
As luzes ascendem completamente, é dia. Não há mais narrador a partir deste ponto até o fim, quando ele surge apenas para encerrar a peça. Outros dois personagens surgirão: Uberichi e Isso, representando as duas potencias humanas: O autojulgamento e o instinto primitivo.
Na Outra Margem
Isso – (Diz acordando Benedito no barco) Bom dia, estrela guia!
Benedito – onde estou?
Isso – (alegre abrindo os braços) Na outra margem!
Benedito – E aqui tem alguma falta?
Isso – (tirando uma flauta do bolso) tem sim olha!
Benedito – Eu disse falta! Cobiça, ganância, música alta.
Isso – hum... tem não, por?
Benedito – Por que me falta
Isso – Mas não falta.
Benedito – (abrindo os braços em cruz) Falta sim olha.
Isso – (Olhando em torno do corpo) hummm...Não falta!
Benedito – Falta, olha mais de perto.
Isso- (Olha fixamente nos olhos de Andarilho) Ah! Parece que de fato, algo te falta, ó! (Tira uma fruta do bolso e oferece)
Benedito – Não, não é fome! É o vazio, você nunca sentiu o vazio.
Isso – (escuta e oferece novamente a fruta)
Benedito – você não entende. Estou falando desse vazio dentro de nós, essa coisa que nunca passa, mas sempre acaba.(Abrindo os braços) Ah, que falta que a falta faz.
Isso – Olha, quando eu tenho fome como. Quando tenho sede bebo. Se quero descansar deito embaixo daquela árvore lá tá vendo? Quando tô que não me aguento, arranjo uma boa briga, as vezes saio todo estropiado, às vezes quem sai quebrado não sou eu. Quando quero amor faço juras eternas e o conjugo entre as pernas. Depois eu esqueço, fico um pouco esquecido por dias, esqueço de lavar a roupa de jogar baralho com os camundongos, esqueço da lua e até de dormir eu não lembro. Certa vez esqueci até do meu nome. E assim sempre fui, não pretendo não ser, Isso é quem eu sou e também o meu nome se quiser escolher.
Benedito – não faz sentido...
Isso – Não há sentido, meu amigo, não existe nenhuma razão... Estamos todos perdidos, tentamos buscar um sentido por que temos medo de não passarmos do que somos, frutos do acaso. Correndo feito camundongos em um grande labirinto ocasional que existe apenas dentro de nós.
Toque de clarim
Benedito – que som é esse?
Isso – Esse som, é o sinal da danação. Uberichi está chegando. Foi um prazer lhe conhecer, mas já vou indo.
Benedito – Como?
(Isso sai de cena)
Benedito – Ele fugiu
Uberichi – Ele quem?
Benedito – Isso
Uberichi – Isso o que?
Benedito – isso, o outro que disse...
Uberichi – E isso lá é nome?
Uberichi começa a colocar correntes presas em Benedito
Benedito - O que está colocando nos meus pés?
Uberichi – (fala despretensiosamente) Culpa
Benedito – Culpa pelo que?
Uberichi – Agora senta ai.
Benedito – que é isso?
Uberichi – (Abrindo o grande livro) Um julgamento!
Benedito – Quem irá julgar o que?
Uberichi – Eu vou julgar você.
Andarilho – E acusar?
Uberichi – Eu também.
Benedito – E defender?
Uberichi – Não há quem defenda culpado
Benedito – Não sou culpado de nada
Uberichi – E o que é isso aí preso nas suas pernas?
Benedito – Culpa, mas foi você...
Uberichi – Pois bem.
Benedito – Foi você quem prendeu isso aqui
Uberichi – A culpa é minha boto onde quiser
Benedito – Nada aqui faz sentido?
Uberichi – Faz. Terça é dia de feijoada (Fala alto) Então se todas as partes estão de acordo, começaremos o julgamento!
O Julgamento
Uberichi – Nome de batismo?
Benedito – Nunca fui batizado.
Uberichi – Mas tem um nome não tem?
Benedito – Tenho.
Uberichi – (perdendo a paciência) E será que a vossa senhoria pode me fazer a gentileza dizer qual é?
Benedito – Posso.
Uberichi – Mas então diga, imundice!
Benedito – Benedito
Uberichi – Benedito de que?
Benedito – De que o que?
Uberichi – Benedito e depois?
Benedito – Depois só veio desgraça, perdi pai, perdi mãe, fui pra roça cedinho...
Uberichi – Não! O que vem depois de Benedito, estrupício, qual o seu segundo nome?
Benedito – Ora, e eu lá posso ter dois nomes moço? De onde eu venho a gente já fica feliz com um só.
Uberichi – Que seja! Benedito então. Profissão?
Benedito – Ixi!
Uberichi – Que foi? Não tem profissão? É vagabundo? Ou pior, (Olha desconfidado) é artista?
Benedito – Quem me dera! Não é nada disso, é que profissão, profissão mesmo eu não tenho não moço. Já fiz de tudo nessa minha vida sabe? Trabalhei na roça desde pequeno, capinava, plantava, colhia, daí veio um monte de gente da cidade pra roça, cheio de máquina e outras tralhas, e o roçado foi minguando, minguando até que se acabou. Então eu e mais uns fomos pra cidade, arranjei trabalho em tudo que foi construção, era cada prédio lindo, mas depois de pronto nós nunca mais via por dentro... Um dia um homem veio e ofereceu um emprego de apertador de parafuso, eu aceitei, e apertei parafuso até pouco tempo atrás quando...
Uberichi – Tá,tá! Apertador de parafuso, pronto! - Então Benedito Parafuso, você será condenado à morte por peixe.
Benedito – Morte por peixe? Que converso é essa, moço?
Uberichi – Assim, vai vir aqui um peixe gigante com olhos de fogo que vai devorar você. Daí você vai morrer. Morte por peixe.
Benedito – Moço, olha bem... Eu por acaso peguei no sono dentro de um barco, esse barco saiu pelo rio, e eu cheguei aqui...
Uberichi – Não devia ficar dormindo dentro de barco.
Benedito – Deve ter algum jeito do senhor me deixar ir.
Uberichi – E como pode ser? Você é culpado.
Benedito – Mas culpado de que?
Uberichi – Do que devia fazer e não fez, do que fez quando não devia fazer ora!
Benedito – Mas disso todo mundo é culpado
Uberichi – Como é?
Benedito – Todo mundo faz o que não deve de vez em quando e em outras vezes deixa de fazer o que deve. Gente é assim mesmo moço.
Uberichi – Pois que jogo todo mundo pro peixe!
Benedito – Pois então o senhor devia se jogar também
Uberichi – (Arrogante) Repete isso sobra fútil
Benedito – Não me leve a mal não moço mas veja só, o senhor mesmo disse que vai me condenar por fazer o mesmo que toda a gente faz. O senhor não é gente também? O senhor não come? E quando come não caga não moço? Quando sangra, não sangra igual a gente? Por acaso o senhor não fede, não cospe, não mente, não chora? Será que o senhor é tão diferente de nós? Será que gente como eu vale menos que o senhor vale moço? Se é então não é gente, mas o senhor parece gente, e se for gente, então deve de fazer o que não deve de vez enquanto.
Uberichi – (folheando o grande livro) acho que você pode estar certo apertador de parafuso. Se tudo que eu faço é fazer o que ninguém faz, como posso estar certo de fazer o que deveria ao invés do que não devo. Devo fazer o que devo fazer.
Benedito – Que é?
Uberichi – (Fanático) Me jogar também ao Grande Peixe
Benedito – Pois bem, estamos resolvidos, o senhor pode ir se jogando então que...
Uberichi – (Desconfiado) Me jogo depois, safado. Primeiro você!
Benedito – Mas senhor
Uberichi – Chega! Vamos começar os preparativos da sentença. Vou buscar o apito para chamar o grande peixe.
Benedito – E esse peixe então tem ouvido é?
Uberichi – Tudo bem para você ele ter olhos de fogo? Mas escutar não pode?
(Uberichi sai e Isso entra cantando com um padeiro);
Isso:
É manhãzinha o galo cantou no pátio
Dei três voltas no gargalo
Gargalhei puxei o rabo
Do tatu que tava atado
O bichinho assustado
Gritou para seu safado




Benedito interrompe
Benedito – Ei!
Isso – Você ainda está aí? Achei que já tinha sido devorado (em tom sarcástico) pelo Grande Peixe. Quer? São cogumelos de Muchichi. O mais puro suco do inconsciente, uma delícia!
Benedito – Quer o que? Não tá vendo que to pra morrer?
Isso – E vai encontrar-se com o único mal irremediável sem ter experimentado um desses?
Benedito – Não quero cogumelo nenhum. Será que você pode me ajudar com essas correntes?
Isso – Tenho alergia.
Benedito –Alergia ao que?
Isso – Culpa.
Benedito – Só pode ser brincadeira!
Isso – Olha, você está vendo isso pelo ângulo errado.
Benedito – Eu vou morrer!
Isso – Ah, isso vai sim. Mas ia morrer de qualquer jeito não ia?
Benedito – Preferia que não fosse hoje.
Isso – Hoje, amanhã... que diferença isso faz?
Benedito – Diz isso por que não é tu que ta morrendo!
Isso – Quanta negatividade. E outra coisa, quantas pessoas tem uma oportunidade como essa? Digo, a maior parte das pessoas morre de tédio sabia? Você por outro lado vai ser devorado! E por um animal imaginário!
Benedito – Imaginário?
Isso – Sim, aqui tudo é imaginário, não percebeu?
Benedito – Então não é real? Eu não vou morrer?
Isso – Isso vai sim.
Benedito – Não entendo.
Isso – Eu sei. Mas isso não faz diferença. Tem certeza que não quer um? Estão uma delícia!
Benedito – Ai de mim! Como vim parar aqui? Preso como um bicho, prestes a morrer.
Isso – Não são essas correntes que prendem você.
Benedito – Ta de brincadeira!
Isso – (Tom elegante) Você pode ser livre mesmo dentro de uma casca de amendoim.
Som de apito
Isso – Opa, opa,opa. Lá vou eu! Foi bom te ver de novo.
Entra Uberichi
Uberichi – Vamos lá Benedito Parafuso, chegou a hora de encarar o destino.
Benedito demonstra desanimo e aceitação do seu destino.
Benedito – O senhor já comeu cogumelos de Muchichi moço?
Uberichi – Tenho alergia.
Benedito – Dizem que é uma delícia.
Uberichi – Uhum.
Benedito – Queria ter comido.
Uberichi – Não perdeu nada. Tem gosto de terra.
Benedito – Mesmo assim.
Uberichi – Então vamos lá, tudo pronto.
A sentença
(Uberichi toca três vezes o apito, o peixe surge)
Uberichi – Benedito Parafuso, você foi condenado pelos crimes de falta e culpa. Acusado e julgado por este que aqui lhe sentencia a pena de morte por peixe.
(Benedito anda em direção ao peixe)
Benedito: Conheço muitos equilibristas. A mãe que levanta cedo leva os filhos para escola, arruma o cabelo no ponto de ônibus antes de ir trabalhar. O homem de cabelos brancos suando debaixo do sol, desde quando se lembra de haver sol. Aqueles que equilibram números todo mês. E voltam a equilibrar outra e outra vez. De fato, não é justo, mas o que o susto nos revela? Não é o dono da boutique quem faz esse mundão girar. É o Zé, o João, a Maria, de sol a sol a trabalhar. Ora, se produzimos tudo, por que tanto temos de pagar. O valor mais alto, aquilo que mais valia, ainda segue a engordar...
Vai se aproximando em silencio e retorna ao texto
A vida é mesmo um trem sem direção. Se tudo acaba e o vento é leve nesta estação, ainda será assim, quando passar o último vagão. Cada pedaço, cada gesto, todo o espaço em cada grão, carrega em si todo o universo. Se transformando a cada passo. Aguardo tranquilo o tempo da espera. Pois, se é o trilho que conduz o trem, não sou eu quem chego, mas o destino que vem.
Ubrichi – E o resto é silêncio.
Benedito joga-se, Uberichi fecha o livro e se vai.
Cortinas fecham por alguns segundos e abrem. Benedito encontra-se no meio do palco com os joelhos e a palma das mãos no chão encharcado, cuspindo água, Isso está parado no canto esquerdo do palco observando a situação.
Benedito – (Agora de pé com os braços abertos) - não morri!
Isso – Quem diria né.
Benedito – Graças a ti que não foi!
Isso - Certamente que não. Inclusive, cheguei agora. Mas te aconselho a cravar a pata daqui viu. Vai lá! Cada remada sete léguas!
Benedito – mais uma vez, obrigado por nada!
Benedito sai de cena.
Isso - (Abana ironicamente)
Isso: E assim se foi nosso viajante, cheio de alegrias e tristezas, como todos nós. Barco em correnteza, no sonho do leme a direção. Certos de poucas certezas, mas com um sonho em cada mão. Há fome, há frio, nasce o homem, morre o rio. Mas há também verso em todo canto, e a beleza por um fio, se equilibra sutilmente, entre a forma e o vazio.
Isso termina a fala e sai caminhando em direção ao meio do palco, após alguns passos revela que carregava uma vara de pescar onde está preso o grande peixe, olha para a plateia e sorri.
Isso – Hoje vou comer peixe!
Entra Anfitrião
Anfitrião: Sejam bem-vindos ao fim da história, que voo de pássaro não deixa memória. Onde nem toda saliva é doce, nem todo amor amanhece. E mesmo que assim fosse a gente sempre esquece, que a vida, não é valsa triste, tão pouco há quem contente. Vem como um tango em riste, dançando por cima da gente. E lambe em língua herege, a fala do poeta descrente, que encontra na palavra uma outra forma secreta. Adeus! Diz a palavra encontrada, que seja a dúvida virtude, e a morte, uma piada!

Fim.


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